quinta-feira, 8 de julho de 2010

Tempo em que se morre


Agora é Verão, eu sei.

Tempo de facas,

tempo em que se perdem os anéis

as cobras à míngua de água.

Tempo em que se morre

de tanto olhar os barcos.





                                                         É no Verão, repito.

Estás sentada no terraço

e para ti correm todos os meus rios.

Entraste pelos espelhos:

mal respiras.

Vê-se bem que já não sabes respirar

que terás de aprender com as abelhas.


Sobre os gerânios

te debruças lentamente.

Com o rumor de água

sonâmbula ou de arbusto decepado

dás-me a beber

um tempo assim ardente.


Pousas as mãos sobre o meu rosto

e vais partir,

sem nada dizer,

pois só quiseste despertar em mim

a vocação do fogo ou do orvalho.


E devagar, sem te voltares

pelos espelhos entras na noite acesa.

Eugénio de Andrade