terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Hora do conto


                   
Descobri um tesouro

que tem a linguagem das nítidas brisas
e vogais espantadas nos olhos das crianças
porque há palavras que são apenas sentimentos


Descobri um tesouro
que escuta o silêncio nas asas de borboletas acabadas
e orações divididas pelo estuário de nós
porque há uma janela suave na brevidade da euforia assustada


Descobri um tesouro
que conjuga os instantes no sorriso das estrelas
e sílabas que morrem com sede de um fragmento de lua
porque há olhos que se misturam na solidão de um verbo imperfeito

Descobri um tesouro
encostado nos ombros da claridade
que pulsa na brancura de um página triste
e a manhã exibe a praia onde florescem rosas
abertas num barco sem cais


Descobri um tesouro
onde dormem todos os sonhos que cabem num gesto
e acendem os céus onde respiramos a ausência


Descobri um tesouro
quando abracei um livro grávido de ternura,
nas mãos ávidas de todos os poentes.
                                                                    Prof. João Nunes

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Posto me tem Fortuna em tal estado


Posto me tem Fortuna em tal estado,
E tanto a seus pés me tem rendido!
Não tenho que perder já, de perdido;
Não tenho que mudar já, de mudado.
Todo o bem pera mim é acabado;
Daqui dou o viver já por vivido;
Que, aonde o mal é tão conhecido,
Também o viver mais será escusado,

Se me basta querer, a morte quero,
Que bem outra esperança não convém;
E curarei um mal com outro mal.

E, pois do bem tão pouco bem espero,
Já que o mal este só remédio tem,
Não me culpem em querer remédio tal.

Luís Vaz de Camões

The Joy of Books

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

DIREITOS DO LEITOR


O direito de não ler.
O direito de saltar páginas.
O direito de não acabar um livro.
O direito de reler.
O direito de ler não importa o quê.
O direito de amar os “heróis” dos romances.
O direito de ler não importa onde.
O direito de saltar de livro em livro.
O direito de ler em voz alta.
O direito de não falar do que se leu.


Daniel Pennac, Como um Romance, Ed. ASA, 1992


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Certificado

 

Certificado de assiduidade

Frequência diária por atividades - Dezembro

Assiduidade na Biblioteca - Dezembro

Receita de Novo Ano

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens

(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

Uma história ?


Uma boa sugestão para despoletar entre os jovens uma reflexão sobre a violência/guerra e as suas consequências.

Bom Ano