terça-feira, 16 de outubro de 2012

Mês das Bibliotecas Escolares


Vivem em nós inúmeros

 
Vivem em nós inumeros
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu 'escrevo.

Fernando Pessoa, in "Pessoa e Pessoas de Pessoa"

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Momentos especiais




Autor do Mês

 
Ilse Lieblich Losa (Melle-Buer, 20 de março de 1913 — Porto, 6 de janeiro de 2006) foi uma escritora portuguesa de origem judaica. Nascida na Alemanha, frequentou o liceu em Osnabrück e Hildesheim e mais tarde um instituto comercial em Hannover. Ameaçada pela Gestapo de ser enviada para um campo de concentração devido à sua origem judaica, abandonou o seu país natal em 1930. Deslocou-se primeiro para Inglaterra onde teve os primeiros contactos com escolas infantis e com os problemas das crianças. Chegou a Portugal em 1934, tendo-se fixado na cidade do Porto, onde casou com o arquiteto Arménio Taveira Losa, tendo adquirido a nacionalidade portuguesa. Em 1943, publicou o seu primeiro livro "O mundo em que vivi" e desde dessa altura, dedicou a sua vida à tradução e à literatura infanto-juvenil, tendo sido galardoada em 1984 com o Grande Prémio Gulbenkian para o conjunto da sua obra dirigida às crianças. Em 1998 recebeu o Grande Prémio de Crónica, da APE (Associação Portuguesa de Escritores) devido à sua obra À Flor do Tempo. Colaborou em diversos jornais e revistas, alemães e portugueses, está representada em várias antologias de autores portugueses e colaborou na organização e traduziu antologias de obras portuguesas publicadas na Alemanha. Traduziu do alemão para português alguns dos mais consagrados autores. Segundo Óscar Lopes "os seus livros são uma só odisseia interior de uma demanda infindável da pátria, do lar, dos céus a que uma experiência vivida só responde com uma multiplicidade de mundos que tanto atraem como repelem e que todos entre si se repelem".
Principais Prémios/Acontecimentos
Em 1982 recebeu o Prémio Gulbenkian de texto: “As Cerejas”;
Em 1984 recebeu o Grande Prémio Gulbenkian, premiando o conjunto da sua obra para crianças e jovens;
Em 1990 são lançados na Alemanha os seus romances: “O Mundo em que Vivi” e “Sob céus Estranhos”;
Em 1992 é lançado na Alemanha um dos seus livros de contos: “Caminhos sem destino;
Em 1998 recebeu o Grande Prémio de Crónica da Associação Portuguesa de Escritores pelo texto; “A Flor do Tempo”.
Principais Obras
1949 – O Mundo em que Vivi;
1950 – Histórias Quase Esquecidas;
1952 – O Rio sem Ponte;
1955 – Aqui Havia uma Casa;
1962 – Sob Céus Estranhos;
1964 – Encontro no Outono;
1979 – O Barco Afundado;
1984 – Estas Searas;
1991 – Caminhos sem Destino.
 
     A Obra:
Texto: Literário.
Género Literário: Narativo_romance.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

ISTO É O MEU CORPO


O corpo tem degraus, todos eles inclinados
milhares de lembranças do que lhe aconteceu
tem filiação, geometria
um desabamento que começa do avesso
e formas que ninguém ouve

O corpo nunca é o mesmo
ainda quando se repete:
de onde vem este braço que toca no outro,
de onde vêm estas pernas entrelaçadas
como alcanço este pé que coloco adiante?

Não aprendo com o corpo a levantar-me,
aprendo a cair e a perguntar.


José Tolentino Mendonça, in "Estação Central" assírio & alvim, 2012