quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Menos de dois dólares, de José Tolentino de Mendonça


“(...)A verdade é que cada um de nós traz vazios, por preencher, carências e interrogações submersas, desejos calcados que procura compensar da forma mais imediata. Não é propriamente de coisas que precisamos, mas, à falta de melhor, condescendemos. À falta desse amor que nem sempre conseguimos, desse caminho mais aberto e solitário que evitamos percorrer, à falta dessa reconcialiação connosco mesmo e com os outros que continuamente adiamos... O consumo desenfreado não é outra coisa que uma bolsa de compensações. As coisas que se adquirem são, obviamente, mais do que coisas: são promessas que nos acenam, são protestos impotentes por uma existência que não nos satisfaz, são ficções do nosso teatro interno. Os centros comerciais apresentam-se como pequenos paraísos, indolores e instantâneos. Infelizmente, de curtíssima duração também.
Li há dias, e impressionou-me muito, que, quando Ghandi morreu, os bens materiais que deixou valiam menos de dois dólares (...) . Os bens espirituais e civis que legou ao futuro tinham, porém, uma dimensão incalculável.(...)”

in Revista Expresso, 4 de Janeiro de 2014, p10.


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