terça-feira, 15 de novembro de 2016

Soneto 28


Posso voltar à leda condição
sem ter descanso ao menos que me anime?
O dia oprime e vir a noite é vão,
a noite ao dia, o dia à noite oprime,
reinos adversos que em consentimento
se dão as mãos a torturar-me-me e basta,
um por fadiga, o outro por lamento
de mais penar que mais de ti me afasta.
Que és claro digo ao dia a ver se agrado,
que lhe dás graça indo as nuvens altas,
e à noite lisonjeio o turvo estado,
que a não haver estrelas tu a esmaltas.
  Longas penas diárias traz-me o dia,
  maior pena noturna a noite cria.

Vasco Graça Moura
in: Os Sonetos de Shakespeare, versão integral
Bretrand Editora, Lisboa, 2007

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