segunda-feira, 6 de junho de 2011

MADREDEUS - Haja o Que Houver

Haja o que houver eu estou aqui
Haja o que houver espero por ti
Volta no vento, ó meu amor!
Volta depressa por favor.

Há quanto tempo já esqueci
Porque fiquei longe de ti
Cada momento é pior
Volta no vento por favor!

Eu sei, eu sei
Quem és para mim
Haja o que houver espero por ti

Fala poesia

Isto de fazer poesia
hoje em dia
é carolice.

Há quem brinque
há quem ria
há quem ache esquisitice.

Mas que querem?

Se os poetas gostam de alinhar
versos e mais versos
e construir universos
de palavras?

Deixem falar os poetas
não se riam!
e vereis o universo
caber na linha dum verso!
Fala poesia!

Vasco Cabral, A luta é a minha Primavera

domingo, 5 de junho de 2011

Apaixonado pela Bibliotecária

As palavras

São como um cristal,
as palavras.

Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.

Tecidas são de luz
e são a noite.

E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade



sábado, 4 de junho de 2011

Estrelas


O azul do céu precipitou-se na janela. Uma vertigem, com certeza. As estrelas, agora, são focos compactos de luz que a transparência variável das vidraças acumula ou dilata. Não cintilam, porém.


Chamo um astrólogo amigo:
«Então?»
«O céu parou. É o fim do mundo».
Mas outro amigo, o inventor de jogos, diz-me:
«Deixe-o falar. Incline a cabeça para o lado, altere o ângulo de visão».
Sigo o conselho: e as estrelas rebentam num grande fulgor, os revérberos embatem nos caixilhos que lembram a moldura dum desenho infantil.


                               Carlos de Oliveira, "Sobre o Lado Esquerdo"

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Confissão

De um e outro lado do que sou,da luz e da obscuridade,
do ouro e do pó,
ouço pedirem-me que escolha;
e deixe para trás a inquietação,
a dor,
um peso de não sei que ansiedade.


Mas levo comigo tudo
o que recuso. Sinto
colar-se-me às costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece.


Nuno Júdice, in
Meditação sobre ruínas, Ed. Quetzal

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades




Belas palavras de Camões pela voz e pelo gesto de Isabela Salim, recolhida em Um Poema por Semana, iniciativa RTP em forma de blog. Serviço público de televisão e de promoção da leitura.





Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.


Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.


O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E, em mim, converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,

Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.


Luís de Camões, 1524?-1580
Sonetos de Luís de Camões
escolhidos por Eugénio de Andrade. Ed. Assírio & Alvim